terça-feira, 24 de setembro de 2013

a vida passa a ter encontros correntes...

Sempre que pensei ter uma profissão, mesmo quando ainda não tinha certezas, sabia de antemão que esta tinha que estar relacionada com a escrita, as palavras e foi a ensinar que pude partilhar essa paixão. Nesta fase da minha vida, eu, que gostava tanto de devorar livros, fiz várias tentativas de me infiltrar numa história mas talvez ainda não esteja preparada. SImplesmente ainda sou incapaz de me concentrar, dizem que faz parte do processo a nossa mente voar sempre para o mesmo sítio e não conseguir descobrir outros. MEsmo assim algumas mensagens as letras me continuam a deixar e há uma em particular que não posso deixar de partilhar convosco. TAlvez já conheçam a definição de filho descrita aos olhos de Saramago, ele também que sentiu a perda no seu caminho. "Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar os nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. ISso mesmo! SEr pai ou mãe é o maior acto de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo o tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo correctamente e do medo de perder algo tão amado. PErder? COmo? NÃo é nosso, lembram-se? FOi apenas um empréstimo!" 
Quando li, pela primeira vez estas palavras, ainda dentro do meu sonho cor-de-rosa, entendi, valorizei, mas não senti... hoje, depois de tudo, tudo faz o mais completo sentido e só quem vive, como Saramago, eu, você talvez, saiba o verdadeiro sentido destas palavras. COmo elas hoje penetram no nosso ser e como, a partir deste dia, nada reclamamos como adquirido. SOmos a pessoa da porta ao lado que lamentamos ter perdido. NÃo somos donos de nada: o material um dia acaba, o marido ou namorado é um ser singular, com a sua própria história de vida que devemos respeitar e não exigir, os filhos são o nosso instrumento de ensino e aprendizagem... não somos donos de nada nem ninguém mas aprendizes da vida e a quem permitiram a melhor das sensações: amar. MAs amar só é bom quando nos entregamos sem pedir retorno e é por isso que os filhos são tão especiais... e, para terminar, partilho outra vivência. TEmos o infeliz hábito de tecer comentários acerca da vida alheia quando, na maioria das vezes, nem imaginamos o que estará escrito naquela história. NO outro dia (porque agora parece que cada vez que ligo a tv acerto no programa que tem sempre a ver com a minha perda) tive a oportunidade de assistir a uma entrevista num dos programas da tarde, em que o entrevistado, que lamento não me recordar do nome, também viveu esta perda e que também é dos únicos que tenho visto pensar como eu. E partilhou uma história que vem a propósito da definição de Saramago. NUma feira do livro, este senhor encontrou Saramago numa sessão de autógrafos e resolveu ir autografar o seu livro. QUando chegou a sua vez partilhou com o autor a sua experiência de ter perdido um filho. SAramago, com filas de pessoas que apenas queriam uma assinatura, pediu desculpa e disse que não podia dar mais autógrafos. Porquê? Porque quis receber o testemunho daquele pai como ele... só toma uma atitude destas quem já viveu... e agora, podemos julgar as atitudes de alguém?

Sem comentários:

Enviar um comentário