segunda-feira, 28 de agosto de 2017

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Hoje tenho saudades de tudo em ti meu José.. eras meu.. desde que te senti sair de mim e tive a sensação mais única do mundo, que achei que eras meu.. eras meu.. pensei que para sempre, e és, mas não da forma que foi, que é..
Fui tua mãe entregue a 100%, tinha saudades tuas antes mesmo de te deixar na escola e contava as horas para te ir buscar.. adormecias no meu colo, com os olhos fixados em mim, tanto que me sentia invadida por um amor tão grande que chegava a doer.. educar-te foi viver porque a tua doçura e amor nunca me deu o trabalho que tantas vezes temos com os nossos reguilas.. ninguém acreditou quando eu disse que o meu coração falava e não te sentia mais tu.. na hora que descobri foram segundos que ninguém deve passar e o que se seguiu foi um arrastar inocente (porque sempre acreditamos) que julgava não conseguir ultrapassar.. quando, os dois sozinhos, tomei coragem e te disse o que só nós sabemos, foste embora, tão serenamente como chegaste.. e, nesse instante, eu pensava que não conseguiria ultrapassar.. no fundo, nenhum dos momentos que achava não conseguir ultrapassar, não consegui mesmo.. nunca conseguirei..
Se nunca estaremos preparados para uma fatalidade, eu digo que não estamos mesmo preparados é para o que fica depois de tudo acontecer e não haver mais nada.. ninguém prepara uma mãe para depois do filho não estar, que quando nasce parece eterno, deixa de o ser.. pelo menos junto de nós.. todos se lembram de agir na hora em que as coisas acontecem mas ninguém se lembra ou sabe o que dizer a uma mãe que já não o pode ser.. não, não pode.. porque embora seja mãe para sempre, não é a mãe que imaginou ser..  e com essa mãe, que nasceu com o seu filho, pois desconhecia os fascínios da maternidade até o ser, de repente essa mãe desaparece juntamente com ele. E, mesmo que volte a ser mãe, não sabe mais quem era na outra vida que a levou.. essa é uma realidade que não me perdoarei.. a de não poder ser agora a mãe que fui.. a verdadeira..
Ninguém nos prepara para as noites em busca de um reviver para conseguir continuar, ou para as saudades de dormir abraçada a ti.. Hoje tenho saudades até do ipo, até do hospital de Faro.. por te poder ver ao entrar num desses quartos e rir-me da tua inocente brincadeira.. porque ali ainda podia sonhar e ter esperança, mesmo que me dissessem que ela não existia.. e podia cheirar-te e pegar-te na mão.. dizer amo-te ao ouvido enquanto dormias..
Amo-te meu José.. a mamã tem muitas saudades..

domingo, 27 de agosto de 2017

"Dá-me Amor, dá-me humildade.."

Eu acredito em Deus, onde, desde pequenina, me apoio. Cresci assim e a fé faz-me ter coragem.. aquela que muita gente pensa ser gigantesca mas é apenas um curto e fino fio, prestes a rebentar. Mas se me perguntarem se acho justa a vida eu direi veementemente NÃO. Olhando para trás, até aos meus treze anos, nunca soube o que era não ser feliz.. era tão bom ser apenas de Deus, da minha família e da paz.. Depois fui crescendo e, muitas vezes, tive sede de viver tudo até ao último minuto.. talvez adivinhasse interiormente que era curta essa alegria genuína. Ultimamente canto para mim vezes sem conta a música que escolhi para me despedir do meu José: "dá-me Amor dá-me humildade e eu moverei montanhas, sim Senhor tu me acompanhas e nunca me irás faltar.. " porque escolhi esta e não outra? Porque o meu filho moveu montanhas com amor e eu sabia que seria a única forma de sobreviver depois.. Depois, conheci esta música na missa, um dia que me comoveu ouvir o amigo R que também está com o meu José, o R que marcou a nossa terra e a nossa adolescência para sempre, que mesmo com tudo o que passava, nunca o vi deixar de sorrir.. nesse dia, olhei para ele na missa, de mãos dadas com a minha querida amiga A L e admirei a sua coragem.. por esses motivos é esta a música que me ouve chorar e depois silenciar.. amor e humildade para aceitar a vida e ultrapassar até ao fim os seus desígnios.
Depois da tempestade tento sempre pensar em tudo o que tenho de bom mas também em tudo o que tive.. e desejar que nunca ninguém "calce os meus sapatos".. prefiro que não me aceitem, não entendam ou me condenem mas que nunca calcem os meus sapatos.. porque, embora passassem a entender o quão frágil é o meu fio condutor, também teriam que enfrentar cada fantasma da minha história e isso eu prefiro guardar para mim até ao último suspiro..

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Fui de ti...

Toda a gente espera que recomecemos, que se continue.. mas eu, José, não sou a mãe hoje que um dia fui contigo.. lembro-me de cantarmos alto no carro, correr à apanhada, rodar contigo no colo, adormecer olhos nos olhos, de fazer imitações de pura criancice.. com aquela alegria pura e genuína que vem do fundo de nós e sozinha, onde, naqueles momentos só existe vontade de rir e viver.. Hoje não sou essa mãe, embora brinque e me esforce, só que não vem do fundo.. vem sempre acompanhada de uma viragem, uma escolha que eu não fiz.. e me mudou para sempre.. só fui tua e se me vês daí penso muitas vezes que não me reconheces.. se existe mais para além disto eu vou voltar a ser eu quando te encontrar..
Talvez ninguém entenda.. só quem me reconhece nesta dor semelhante ou Deus que me viu renascer.. sim.. renascer.. porque eu, quem me conheceu desde sempre, sabe que não sou eu mas uma peça reconstruída, disfarçada e de sorrisos incompletos..
E talvez muitos se perguntem o porquê de muitas atitudes minhas ou ausências.. Não vos conseguirei explicar.. não foram eu.. não são eu.. duas Paulas.. duas porque quanto mais tempo passa menos me reconheço.. e até que gostava de mim.. porque era feliz.. feliz de dentro para fora..
Ainda bem José que me deste os manos de presente.. Ainda bem José que sempre me continuei a sentir mãe de três, ainda bem José que, por vezes, alguém me traz uma memória esquecida e eu posso revive-la como nova, um folgo, um sopro de vida..
Tenho saudades até ao infinito, mais ainda quando te senti aqui..

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Tem.que ser..

Hoje penso na efemeridade da vida.. um dia somos uma multidão, no outro, inesperadamente, uma nuvem que se dissipa.. quem parte deste mundo desaparece como quando os mágicos, no seu espetáculo, iludem o público em segundos. Mas, na vida real, não há magia ou ilusão, há penumbra e choque. Depois dissipa-se, regressa, dissipa-se.. os que ficam, alguns nem recordam esse vazio da nuvem que desapareceu mas aqueles que carregam a resposta "tem de ser" quando perguntam "como vai tudo?" "Vai indo.. tem que ser..".. esses nunca regressam de onde viram a nuvem partir. Esses reconhecem-se bem.
Uma das coisas que mais pensava inicialmente era: "quando me perguntarem como estou, nunca mais vou poder dizer bem, aquele bem que vem de dentro..". O tempo passa e sempre que me fazem essa pergunta, continuo a pensar da mesma forma.
Também pensei que era a pessoa mais desafortunada do mundo mas infelizmente conheci tantas mães como eu.. quando passamos ou procuramos algo, parece que, de repente, passamos a ver isso constantemente.. talvez seja a lei da atração.. o tempo passa e, por vezes, vejo inúmeras pessoas tão desafortunadas quanto eu mas também vejo vidas que não regressam ou tombam vezes seguidas como se o destino não tivesse piedade deles.. e aí sinto-me pequena por tantas vezes me achar a mais sofredora do mundo e saber de outras tantas que parece que não lhes chega a oportunidade para renascer..
Que o milagre da vida me continue a acompanhar e àqueles que amo.. porque não há nada mais bonito que ter a sorte de viver, rodeado daqueles que se ama.. um dia as nuvens consomem-se e aí só resta a lembrança dos poucos que nunca os esquecem.. e nós não queremos apenas recordar, queremos viver o mais que pudermos!
Respire, viva e não sobreviva, sorria ao invés de repreender, dê ao contrário de exigir, apoie..